10/03/2015

Sobre mudanças e intercâmbio: mais um passo

intercambio-thumb A minha história com mudanças começou quando o meu irmão – 3 anos mais velho do que eu – resolveu fazer intercâmbio para os Estados Unidos. Eu, na época com 13 anos, acompanhei tudo com os olhos sonhadores de quem pensava “quero ser assim quando crescer”. Só que esse “crescer” veio dentro de 3 anos e em 2007 já era a minha vez de passar 1 ano longe de casa, num lugar que nem o mesmo idioma falava. Eu não fazia ideia do efeito dominó que esse tal de “passar um tempo longe de casa” iria me causar.

O intercâmbio foi, talvez, dentre as experiências que eu passei por escolha própria, a mais difícil da minha vida. Mesmo com muitos momentos de diversão, muitas pessoas queridas e muitas experiências incríveis, foi problemático e sofrido – só pra ter uma noção eu troquei de família escoltada por 3 carros da polícia. Eu voltei pra casa torcendo pra o pessoal da agência não me chamar pra dar palestra ou compartilhar a experiência, por que olha, era capaz de muita gente desistir com as minhas histórias – mesmo eu amando elas.

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Voltei ao Brasil com aquela sensação de dever cumprido e de quem, agora, tinha conquistado o direito de viver na zona de conforto, sabe? Pensei “passou, superei, agora é só contar o que eu vivi e me orgulhar”. Como se eu tivesse conquistado o direito de não precisar mais passar por isso. Eu estava errada de novo, nossas escolhas não se importam com esse tal desse direito.

6 meses depois, passei no vestibular para a turma que começava no segundo semestre: ou seja, tinha alcançado meu objetivo de entrar na universidade e tinha 1 semestre desocupado na minha mão. Como Estados Unidos já era território familiar, escolhi ir pra Paris estudar francês e passar meu semestre (na verdade, 4 meses). Mais uma vez não foi uma experiência fácil, foi boa e válida, mas não fácil. Paris dá uma poesia pra todas as histórias que a envolvem – e pra vida – mas mesmo a capital da moda, do amor e da luz causa ansiedade e medo, causa a solidão de se estar longe de casa.

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Não sei dizer exatamente em que momento as coisas mudaram: mas eu aprendi que as pessoas vivem diferente de mim, que eu posso, mas não preciso, seguir os passos dos meus pais, que eu posso questionar a minha religião, que a minha saúde é um dos meus bens mais importantes e que eu sou a principal responsável por ela, e principalmente, como a arte importa, pra mim e para o mundo.

Também aprendi que desembarcar e não ter ninguém esperando por você pode ser desesperador, mas também pode ser um baita grito de liberdade, depende de como você veja.

Ir para um lugar desconhecido e cuidar de mim mesma passou a ser um prazer, mais do que isso, eu acho que desaprendi a viver de um jeito que não seja esse.

A questão com mudança é que nenhuma ação é “mudança” em si. Se você se acostumou com aquilo, pode ainda sim ser uma experiência incrível, mas não é uma mudança. Mudança implica em sair da zona de conforto, em sentir frio na barriga, é nessa área em que a magia acontece, que você faz coisas que não faria se estivesse no conforto do seu lar.

Tudo isso demorou – e muito – pra entrar na minha cabeça. Eu aos 16 anos me sentia sortuda em ter chance de ir para os Estados Unidos e ser uma autêntica líder de torcida. Eu aos 18 me sentia sortuda em poder comer croissant nas ruas de Paris toda manhã. De poder pegar um trem pra Londres e passar 1 semana estudando na Central Saint Martins. De poder pegar um trem de volta pra Paris por que eu queria assistir ao show da Madonna. Sortuda eu sei que eu era – e sou – mas aqueles meses significaram muito mais do que isso.

Depois de 1 ano e meio de faculdade de direito na UFAL (dessa vez eu estava em casa), eu cansei, algo me incomodava, e muito. Eu não me identifiquei com o curso, e ficar ali, naquela cidade que eu sempre amei – e ainda amo – não era mais suficiente.

Por isso que eu digo que o meu intercâmbio para os EUA e para a França foram muito mais do que fotos bonitas e histórias legais, eu teria coragem de trocar de curso por um muito menos tradicional e vir para o Rio morar sozinha se eu não tivesse tido essas experiências? Provavelmente não. Provavelmente não teria nem identificado o que me incomodava. Uma coisa que viajar e se aventurar te dá: perspectiva.

Hoje, devidamente formada e grata à tudo o que o Rio me ensinou nessa fase da minha vida, o meu passaporte está carimbado pra próxima mudança. No dia 23 desse mês, estou indo pra Los Angeles com passagem só de ida pra continuar estudando essa arte que eu descobri que é uma parte tão grande de mim. Vou cursar Visual Communications na FIDM por 15 meses.

E depois de alguns intercâmbios, muitas viagens sozinhas – no avião e no destino – e algumas mudanças de endereço, como eu me sinto? Agradecida e solidária à Paula de 16, 18 e 20 anos, que, de certa forma, sentiu o que eu tô sentindo agora, sofreu e cresceu pra que eu possa, hoje, estar tomando essa decisão com o coração muito mais calmo do que as passadas. Que venha mais aprendizado, mais crescimento e mais aventura. E obrigada a todas as pessoas que fizeram isso possível. ♥

“Somewhere, something incredible is waiting to be known.”

Carl Sagan

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