03/12/2015

O lado obscuro do talento

Um dia, sentadinha na sala de espera da psicóloga, uma capa da revista Galileu me chamou atenção. “O lado bom da depressão”, dizia o título da reportagem que eu nem terminei de ler. O que ficou comigo dessa capa não foram as informações da matéria – que eu nem lembro – mas uma lição que eu já tinha ouvido várias vezes antes e precisei ouvir mais outras vezes depois para realmente entendê-la: existe algo bom em algo tão obscuro como a depressão, assim como existe algo negativo em coisas boas. Recentemente, consegui decifrar uma angústia pessoal e passei a entender que há um lado obscuro no talento.

Acho que eu posso dizer, sem risco de soar presunçosa, que eu sou uma pessoa talentosa. Veja só, não estou falando em criar coisas belas ou em bater recordes, até por que esses determinantes de sucesso são influenciados por muuitas variantes além de talento, né? Estou falando de, quando pequenininha, ter começado com certa “vantagem” em referência a outras pessoas com habilidades como pintar, dançar, tocar, cantar etc. Pra mim, talento é o que se manifesta naquela primeira aula, ele é o empurrão e a voz dentro da gente que, quando experimenta uma atividade completamente nova, pensa “hum, eu sou boa nisso, quero fazer mais”. É o que faz a gente se dedicar às artes visuais e não ao vôlei, por exemplo.

Se identificou? Então acompanha só. Desde criança, a gente se destaca entre os colegas com determinada atividade (vamos usar o desenho para efeitos de ilustração). Com o tempo, os olhares encantados e os parabéns que a gente escuta vão se internalizando de alguma maneira; seja em forma de motivação para praticar, pra desenvolver a técnica ou em alguma outra forma bem mais sutil, quase, quase silenciosa. A gente vai crescendo, amadurecendo, e o mesmo acontece com os nossos desenhos, nem sempre no mesmo ritmo.

Qualquer trajetória de quem se aventurou com desenho inclui algumas das mesmas etapas. Todo criativo tem a voz daquele professor na mente enfatizando a importância de buscar o estilo próprio. Todos entendem a necessidade da prática para melhorar a habilidade. E, ironicamente, todos já devem ter ouvido que talento não é lá tão importante.

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“Talento é sorte. O importante na vida é coragem”. Manhattan (Woody Allen)

O que ninguém ensina, talvez por ignorância ou para não gerar pânico (compreensível), é que com o talento vem tarefas nada leves. Descobrir o estilo próprio é muito importante pra quem quer trabalhar com criação e ser reconhecido pela sua arte, sim. É, também, um processo de auto-conhecimento que nem sempre a gente está preparado pra enfrentar. Olha, envolve olhar pra dentro, enxergar coisas lindas e outras nem tanto; envolve enfrentá-las uma a uma, sem direito a desviar o olhar. Fazer arte é um dom que quem experimenta dificilmente tem a opção de não aceitar, mas que coloca o artista num lugar vulnerável e, às vezes, doloroso.

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“Você pode escolher coragem ou você pode escolher conforto, mas você não pode ter os dois”. Brené Brown

Não é à toa que ficar em frente a um papel/tela em branco pode gerar sentimentos tão distintos: prazer, alívio, entendimento, compreensão, mas também, tristeza, solidão, bloqueio, não ser bom o suficiente, não ter a técnica certa, não ter uma mensagem poderosa o suficiente etc. Muitas das pessoas que escolheram seguir a arte (ou seria a arte que escolheu as pessoas?) escutam que é preciso se descobrir, dando a ilusão que esse processo tem início, meio e fim.

A verdade é que as fases de descoberta e de criação acontecem paralelamente durante toda a vida. E esse processo pode ser lindo, autêntico, poderoso e necessário, mas, ele só vem se a gente permitir a vulnerabilidade.

É uma cláusula do contrato do talento que ninguém leu antes de assinar.

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“Vulnerabilidade é o local de nascimento da inovação, criatividade e mudança.” Brené Brown

 


Essa reflexão quase foi reprovada na regrinha não verbal que eu tenho de só postar mensagens positivas aqui no blog. Até que eu reli o meu próprio texto e entendi que essa é exatamente a mensagem. Não existe bom sem ruim e ruim sem bom. Percebi até que o texto virou exatamente o oposto quando eu o reli com isso em mente, uma mensagem positiva e libertadora, um convite à aceitação das coisas que vieram para nós, independente de escolha, seja ela a angústia de um papel em branco, seja ela a maravilha de um talento. Um brinde à criatividade.

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Vem que tem mais coisa boa

5 Comentários

  • Reply Isadora 04/12/2015 às 6:48 pm

    Verdade, amiga!!!! Essa é a mais pura realidade!! Quase um Yin Yang!! Saudades, beijos!!

  • Reply Joseana Mar 11/12/2015 às 5:16 am

    Nossa que texto, muito bom!
    Eu nunca tinha pensado assim!

    Beijos
    http://www.universoramona.wordpress.com

  • Reply Denise 16/12/2015 às 2:18 am

    Como contestar sem contestar:
    Existem várias formas de se chegar. Com certeza com resultados diversos. Por que se escolhe o mais difícil? Posso opinar? sim, opinar. Descobrir de outra maneira, o que de forma fácil, prática e confortável, lhe foi mostrado, pode ser um caminho. Descobrir com o tempo, com os erros e com a experiência que existem sim, o bom sem o ruim e o ruim sem o bom. Tudo depende de como se consegue traduzir, de forma simples, o que seria o bom, e nesse complexo processo de tradução entender que o ruim é simplesmente o bom, que não veio embrulhado para presente, ou melhor, que o ruim, seria o bom oferecido, talvez de forma muito fácil, que talvez por essa facilidade e talvez por esse excesso de talento, leve uma pessoinha tão talentosa, tão amada, tão querida e admirada, não por unanimidade, porque a própria pessoinha seria voto contra, colocar em um mesmo papel: Felicidade x Depressão; Alegria x Tristeza; Dificuldade X Perfeccionismo; Profissão x Terapia.
    Como contestar sem contestar? Como contestar sem ficar vulnerável???
    Thatiana is the question!