E que seja perdido o único dia em que não se dançou

E que seja perdido o único dia em que não se dançou

E que seja perdido o único dia em que não se dançou

Não foi até eu ter por volta de 14 anos que comecei a dançar ballet. A essa altura, eu já achava que “ballet não era pra mim”, era velha demais e eu “sempre fui da ginástica mesmo”. Por sorte ou destino, a minha então futura professora morava no mesmo prédio que eu e, vez ou outra no elevador dizia como eu tinha porte de bailarina. Digo sorte, por que só mesmo pela persistência dos convites dela dei uma chance ao que veio ser uma das grandes paixões da minha vida, o ballet.

A paixão – ou seria obsessão? – foi instantânea. Já não me bastava a aula iniciante, alternava entre aulas com meninas muito menores que eu, e meninas muito mais experientes do que eu, pedia pra mudar de nível no meio do ano. Daí adiante foi só acrescentar à minha vida tudo que fosse relacionado à dança. Sapateado, alongamento, blogs de dança, pesquisa sobre sapatilhas de ponta, sobre as melhores marcas de roupas de dança, conversas, irritar as amigas de tanto falar no assunto, mais conversas, até uma tatuagem temporária de uma bailarina eu lembro ter feito no tornozelo, era dança, muita dança.

Dancei muito, por horas, por semanas, por anos. Fraturei um osso do pé. Sem real motivo aparente, o médico disse, “por esforço”. Desloquei um ombro no dia da apresentação, dancei mesmo assim. Parei na farmácia pra comprar o remédio prescrito, maquiagem e coques feitos. “Não toma esse remédio não, ele vai tirar a expressão da sua dança, toma esse que é mais fraco”, a farmacêutica que me conhecia – e provavelmente a minha obsessão – aconselhou.

É fácil ser saudosa, a gente lembra da dor com poesia, da fratura com orgulho, eu chorava muito, eu era boa, mas nunca o suficiente. Mas o ballet foi uma das melhores coisas que já aconteceu na minha vida. Eu sempre fui uma pessoa apaixonada, mas acho que nunca tinha experimentado paixão tão grande até então. Não dá pra colocar em palavras a importância da expressão, né? Mas é de um prazer enorme, é impressionante o que o seu corpo pode fazer, só experimentando para saber.

Eu deixei o ballet pra seguir a minha outra paixão, explorar o mundo. Até tentei, no Arkansas, em Paris, no Rio, em Los Angeles, mas nenhuma academia de ballet me deu o que eu precisava. Aquele equilíbrio perfeito entre estar fora da zona do conforto na sua zona do conforto. Por que se a dança permite demais, é dançar por dançar e perde-se o desafio. Se aperta demais, deixa de ser expressão.

Eu lembro da pensar “nunca quero passar 1 dia da minha vida sem dançar”. Eu lembro não só das palavras, mas da sensação, sabe como é? Ainda hoje consigo sentir esse calor quando penso naquele momento. “E que seja perdido o único dia em que não se dançou”, diz a frase atribuída a Nietzsche. Posso concordar discordando?

Já faz mais de 1 dia que eu não danço, anos na verdade. E olha, falta faz. Mas, além de dançar, o ballet me ensinou a sentir paixão, e isso continua. Se Nietzsche me permite: que seja perdido o dia em que não se apaixonou.

Sketch que fiz como estudo de anatomia e prática de “quebrar” o corpo humano em retas e esquinas. Simplificação das formas tentando ter expressão e personalidade com o mínimo possível de traços.
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