O que falar quando ninguém quer ouvir

O que falar quando ninguém quer ouvir

O que falar quando ninguém quer ouvir

O ser humano é um animal social, não fui eu que disse, foi a biologia. Interações com outros humanos é o que nos mantém vivos, foi assim que nossos ancestrais sobreviveram por tempo suficiente para que nós estejamos aqui hoje. Um bebê humano é dependente de adultos por tanto tempo que somente com a colaboração de outros humanos conseguimos conquistar alimento, prepará-lo, cuidar na nossa higiene, saúde e, bem, nos manter vivos. Mas até que ponto levamos isso como garantido? Somos feitos pra falar, mas será que aprendemos a ouvir?

Isolamento social tem um monte de efeito no nosso corpo – se não foi a biologia quem disse, foi a experiência própria dos últimos meses em quarentena. Uma das ideias que vão e voltam na minha cabeça reflexiva durante esse tempo é o conceito de propósito. Às vezes acordo convencida que o meu propósito é apenas amar, cuidar de mim, dos meus próximos e dos que precisam de algo que eu posso abrir mão ou dividir. Às vezes não.

A ideia de propósito é tão abstrata que, talvez por inocência, frequentemente cometemos o erro de associá-lo a algo que já conhecemos, como um título de emprego, um cargo de liderança na comunidade ou família. Eu até entendo, essas invenções humanas são tão internalizadas no nosso dia a dia que é fácil esquecer que, bem, elas são invenções humanas. Mas, afinal, aonde mais busco o meu propósito se não nos lugares que eu já conheço?

Às vezes penso que meu propósito deve ser conectado a comunicar uma mensagem. Faz sentido, eu sempre gostei de falar, escrever, fotografar, desenhar, ensinar. Praticamente todos as variedades de comunicação verbal e visual que eu possa pensar fazem parte da minha vida “desde que eu me entendo por gente”. O sol, ascendente e Mercúrio em gêmeos confirmam. Sem pestanejar, o mesmo cérebro que chegou a essa conclusão (se contradizer é um hobby dele) também pensa: e quem é que quer ouvir essa mensagem?

Ouvi Malala Yousafzai dizer, ainda ontem, que se pudesse dar um conselho pra ela mais nova seria: confie na sua própria voz, pessoas tentarão calá-la, tentarão te dizer que ela não é importante, mas sempre confie na sua própria voz.

No momento que escutei isso pensei “bom, a Malala do passado certamente não precisou desse conselho pra virar A Malala”. Talvez esse conselho tenha sido não para uma Malala do passado, mas para outras tantas pessoas no tempo presente que estão deixando seu propósito de molho por um motivo ou outro. Talvez esse conselho tenha sido pra mim.

Eu gosto de pensar que confiar é uma experiência não muito diferente da fé, é o acreditar sem ver, sem a validação da ciência, é acreditar numa experiência que acontece dentro de você e em nenhum outro lugar.

Em um mundo cheio de ruídos, nunca foi tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo ter uma audiência. O que falar pra uma platéia distraída e barulhenta? Talvez esse tipo de resposta só exista no mesmo lugar da fé, talvez eu tome o conselho da Malala para mim.

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3 Comments

  • Persis
    3 meses ago

    Talvez o nome da voz seja intuição e talvez seja preciso coragem pra ouvir.

  • Denise
    3 meses ago

    A fé move montanhas. As vezes o silêncio fala mais que
    Muitas palavras

  • Isadora
    3 meses ago

    Comunicar é a minha vida, você bem sabe (duas faculdades de humanas estão aí para provar)… hahahaha
    Mas essa quarentena me fez apreciar tanto o silêncio, que eu já estou familiarizada com o som dele! Por incrível que pareça, até o silêncio se comunica com a gente! (L)

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